segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Mateus 5,1-12: As bem-aventuranças como caminho de santidade

Por Ildo Bohn Gass

Felizes os que são pobres no espírito, porque deles é o reino dos céus (Mateus 5,3)
Todas as pessoas são chamadas à santidade, a fim de serem bem-aventuradas. Sede santos, porque eu, Javé vosso Deus, sou santo (Levítico 19,2). A comunidade de Mateus faria uma releitura desse chamado da seguinte forma: Sede perfeitos, como o Pai celeste é perfeito (Mateus 5,48). Coerente com sua experiência com o Deus da misericórdia, a comunidade de Lucas formula assim o mesmo chamado: Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso (Lucas 6,36).
Dia 02 de novembro é um dia especial em que milhões de pessoas refletem sobre todas as pessoas bem-aventuradas e que já se encontram na glória do Pai. Conforme a comunidade de Mateus, Jesus nos propõe oito bem-aventuranças como caminho de santidade e que já começa nesta vida.
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Bem-aventuranças (www.jesusmafa.com)
Quando Mateus apresenta Jesus fazendo cinco grandes discursos (Mateus 5-7; 10; 13,1-52; 18; 24-25), sua intenção é apresentá-lo como o novo Moisés, a quem eram atribuídos os cinco livros da Lei, o Pentateuco. A Lei era considerada a expressão da vontade de Deus. No tempo de Jesus, muitos fariseus estavam preocupados em viver a Lei ao pé da letra. Jesus, porém, vive e anuncia essa vontade de Deus indo além da letra da Lei. Diz que é o espírito da Lei que interessa e que ele consiste na vivência do amor a Deus e ao próximo como a si mesmo (Mateus 22,34-40). Diz ainda que este espírito da Lei deve ser a orientação fundamental para o nosso agir (cf. Mateus 12,1-8; 23). Mateus chama essa vontade de Deus de justiça do Reino. Se Moisés era o antigo mestre da Lei, Jesus é o novo mestre da justiça a nos ensinar o caminho de Deus, o caminho da santidade.
O primeiro grande ensinamento do mestre da justiça, o Sermão da Montanha (Mateus 5-7), é um conjunto de orientações para a boa convivência na comunidade. Tal como Moisés escrevera as palavras da Lei estando sobre um monte, Jesus dá as novas orientações também numa montanha (Êxodo 34,28; Mateus 5,1). 
As bem-aventuranças (Mateus 5,1-12) são a porta de entrada ao Sermão da Montanha Mateus (5-7). São um programa de vida para trazer felicidade plena a quem adere à Boa-Nova de Jesus. 
A justiça do Reino dos Céus (= de Deus), isto é, a vontade de Deus, é o carro-chefe das bem-aventuranças. O Reino é o projeto na primeira e na oitava bem-aventurança. E, no centro, estão a busca da justiça e a busca da misericórdia (ter o coração voltado para quem está na miséria). Uma vez realizada a justiça de Deus, os empobrecidos deixarão de ser oprimidos, pois haverá partilha e solidariedade. Por isso, Jesus os declara felizes. 
A primeira bem-aventurança é a mais importante. As demais são explicitações desta. Os pobres são aqueles que choram, são os mansos ou humildes (no Salmo 37,11, texto-base para esta bem-aventurança, são chamados de pobres-anawim), os que têm fome, os misericordiosos, os puros de coração, os que promovem a paz e as pessoas perseguidas por causa da justiça. E as dádivas para os empobrecidos são: o Reino de Deus, o conforto, a terra partilhada, a fartura, a misericórdia, a contemplação de Deus e a filiação divina (agir à imagem e semelhança de Deus ou ter as mesmas atitudes de Deus). 
Mas ser pobre não é suficiente. Está claro que os empobrecidos são os preferidos de Deus, justamente por que ele não pode ver nenhum de seus filhos e nenhuma de suas filhas passando por necessidades. Ainda mais, quando a pobreza é fruto da injustiça humana. É interessante notar que esta mesma bem-aventurança, no Evangelho segundo Lucas, reza assim: “Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus!” (Lucas 6,20). 
Quando a comunidade de Mateus acrescentou “no espírito” à primeira bem-aventurança de Jesus (Mateus 5,3), também estava preocupada com o fato de que há pobres com o espírito de rico incorporado em seu coração e sua mente, buscando, na riqueza e no poder, o sentido mais profundo para a vida. Por isso, quis deixar bem claro para seus destinatários que não basta ser pobre, mas que é preciso ser “pobre no espírito”, isto é, viver de acordo com o espírito do próprio Deus; ser pobre também por opção pelo projeto da justiça e de misericórdia; viver na total confiança e dependência de Deus; confiar na partilha, na vida simples e na fraternidade. 
Aliás, são justamente as pessoas que buscam a felicidade no consumismo e no individualismo que perseguem aos que lutam pela justiça do Reino, pela paz e pela partilha. Foi assim que, no passado, os poderosos perseguiram os profetas (Mateus 5,10-12). 
E hoje, Jesus renova o convite para nós: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mateus 6,33). E o caminho da justiça do Reino, o caminho da santidade está na prática do espírito da Lei proposto nas orientações fundamentais para a vida contida, isto é, nas bem-aventuranças.  

Ildo Bohn Gass é bliblista, leigo católico. Junto com o Pastor Carlos Dreher (IECLB) e a Revma. Lucia Sírtoli (IEAB), é autor do livro O pão nosso de cada dia dá-nos hojeÉ também de sua autoria a série Uma introdução à Bíblia.